sexta-feira, 19 de abril de 2013

Lições a serem tiradas da mais antiga empresa multinacional do mundo – A Igreja Católica



Quando disse ao meu pai que faria faculdade de Administração de Empresas, ele me respondeu com um sorriso enigmático:
“Então comece estudando a Igreja Católica — a mais antiga e bem-sucedida multinacional do mundo.”


Na época, achei curioso. Mas quanto mais me aprofundei em temas como estrutura organizacional, liderança, comunicação interna e expansão global, mais percebi que ele tinha razão.

Fundada há mais de dois mil anos, com sede em um microestado soberano (a Cidade do Vaticano), a Igreja Católica tem presença consolidada em todos os continentes, uma rede de filiais locais, governança centralizada, identidade de marca forte e valores universais — características que qualquer multinacional invejaria.

Sua estrutura hierárquica é clara e funcional: o Papa seria o “CEO global”; os cardeais e bispos, os “diretores regionais”; os padres, os “gerentes locais”. E todos alinhados por uma “cultura corporativa” baseada na missão de anunciar o Evangelho, com processos, rituais e linguagens padronizadas. A Cúria Romana funciona como uma matriz administrativa com dicastérios que equivalem a departamentos de RH, jurídico, marketing, relações internacionais, entre outros.

Similaridades

Ao analisar os recentes acontecimentos envolvendo a renuncia do Papa Bento XVI e a nova escolha do papa Francisco, o primeiro papa jesuíta, fica evidente que a instituição ‘Igreja católica’ se comporta como uma genuína empresa multinacional. A forma que a igreja Católica administrou seus negócios para eleger um novo papa e responder aos escândalos foi recentemente analisada em artigos como os escritos por Marcus Fisher para a Fast Company, pelos blogueiros da Shumpeter para a revista The Economist, da revista da Universidade de Wharton - Leadership and Change, etc.

Se a igreja Católica fosse uma empresa ela seria um império multibilionário, com faturamento anual de US$ 182 Bi, com 1.200 bilhões de clientes, 1 milhão de empregados e com filiais em 179 países do mundo.




É importante que se diga que não tenho a intenção de faltar com o respeito aos cristãos católicos no que diz respeito a sua fé, mas sim avaliar o modelo administrativo da instituição e incentivar a aprendermos preciosas lições desta instituição, que vem nos ensinando muito nos últimos 2000 anos (nenhuma outra empresa tem tamanha estrutura e antecedente histórico).

A seguir destaco as lições mais importante que aprendi durante um interessante trabalho que iniciei no final dos anos 90 e que me levou a atravessar os portões do vaticano em visitas ao museu, parte da biblioteca, bem como outras salas internas e fornece ferramentas importantes para avaliar como instituição administrativa da igreja católica encara seus novos desafios no pontificado do Papa Francisco:

1 - O nome -

O termo "católico". A combinação "a Igreja Católica" (ele katholike ekklesia) é encontrada pela primeira vez em uma carta de Santo Inácio aos Esmirnenses, escrito por volta do ano 110DC é derivado da palavra grega καθολικός (katholikos) que significa "universal", que vem da frase grega καθόλου (katholou), ou seja, "em geral" e όλος que significa "todo".

O nome da marca é a base para todos os outros esforços de marketing. É a primeira experiência de sua marca na mente do cliente, é a introdução verbal da empresa para eles. Uma marca boa deve:
A - Envolver os clientes emocionalmente;
B - Identificar o tipo de produto ou serviço que a empresa está oferecendo;
C - diferenciá-la da concorrência;
D - Os clientes devem se lembrar dela;

O nome "católico" é perfeito e parece ter sido criado por uma agência de publicidade moderna para a cultura da globalização dos dias de hoje.

2 - Organograma -

O governo do Vaticano é uma teocracia sacerdotal Eclesiástica absoluta eletiva, em que o chefe da Igreja Católica, o Papa, exerce ex officio (por força da posição que ocupa) supremo poder legislativo, executivo e judicial em todo o Estado da Cidade do Vaticano (uma entidade distinta da Santa Sé), um caso raro de monarquia não-hereditária. 

Sistema Administrativo da Igreja Católica: Cardeais e Camerlengo

A Igreja Católica possui uma estrutura administrativa complexa e altamente organizada, com funções bem definidas — muito semelhante à de uma grande corporação global.

Os Cardeais: "Conselho de Diretores Globais"

Os cardeais são os principais conselheiros do Papa. Eles formam o Colégio Cardinalício, dividido em três ordens:

Cardeais-bispos (ocupam cargos mais altos, como o decano),
Cardeais-presbíteros (normalmente arcebispos de grandes dioceses),
Cardeais-diáconos (geralmente ligados à administração da Cúria Romana).
Seus papéis incluem:

Assessorar o Papa em decisões doutrinárias, pastorais e administrativas;
Participar de conclaves (assembleias secretas) para eleger um novo Papa, se tiverem menos de 80 anos;
Presidir grandes arquidioceses ou liderar departamentos (dicastérios) da Santa Sé.
O Camerlengo: "Chefe de Operações em Tempos de Transição"

O Camerlengo (ou camerlengo da Santa Igreja Romana) é um cardeal nomeado pelo Papa, cuja função se torna especialmente relevante quando o Papa morre ou renuncia — período conhecido como sede vacante.

Durante esse tempo, o camerlengo:

Administra os bens e finanças da Igreja;
Verifica oficialmente a morte do Papa;
Lacra os aposentos papais;
Coordena os preparativos para o conclave;
Não governa espiritualmente a Igreja, pois essa função está suspensa até a eleição de um novo Papa.
Ele é, portanto, o equivalente a um chefe de operações ou administrador interino, mantendo o funcionamento da “empresa” enquanto o “CEO” não é substituído.
Depois de cerca de 2000 anos de "tentativa e erro" Igreja Católica tem a seguinte estrutura organizacional:



Cardeal Decano vs. Camerlengo — Funções distintas no alto clero da Igreja Católica

O Cardeal Decano é o presidente do Colégio de Cardeais, eleito entre os cardeais-bispos. Sua principal função é presidir o conclave que elege um novo Papa, desde que ele tenha menos de 80 anos (caso contrário, ele pode delegar essa função). Além disso, é o responsável por anunciar ao mundo o novo Papa junto ao Cardeal Protodiácono. O Decano é uma figura espiritual e simbólica de liderança entre os cardeais, mas não exerce poder executivo ou administrativo sobre eles.

Já o Camerlengo é o administrador temporário do Vaticano durante o período de “sede vacante” (quando a Sé de Pedro está sem Papa). Ele cuida das finanças, organiza o funeral do Papa falecido, supervisiona a preparação do conclave e garante que os assuntos da Igreja continuem funcionando do ponto de vista material e administrativo — mas não espiritual. O Camerlengo é nomeado diretamente pelo Papa.

Em resumo:

O Cardeal Decano lidera os cardeais como um “presidente honorário”, com foco espiritual e cerimonial.
O Camerlengo atua como um “chefe de operações temporário” da Igreja, com foco administrativo durante a transição.


Atualização de 2022






                   
 

A diferença entre Congregações e Dicastérios no Vaticano 

Historicamente, a Cúria Romana (a administração central da Igreja Católica) era organizada em diversos órgãos chamados Congregações, como a Congregação para a Doutrina da Fé ou a Congregação para os Bispos. Esses órgãos tinham funções específicas na governança da Igreja e estavam entre os mais importantes da estrutura vaticana.

Contudo, em 2022, com a promulgação da constituição apostólica Praedicate Evangelium pelo Papa Francisco, houve uma reforma da Cúria Romana, e as Congregações passaram a se chamar Dicastérios (do latim dicasterium), termo mais neutro e abrangente. -

A mudança reflete:

Um desejo de maior sinodalidade (tomada de decisões mais colegiada), Menos hierarquia formal entre os departamentos, E um foco renovado na evangelização como prioridade da Igreja.

Resumo:

Congregações eram os departamentos antigos, com nome tradicional e estrutura hierárquica rígida.


Dicastérios são os novos departamentos com nomes e funções mais atualizados, sob a mesma estrutura da Cúria Romana, porém com uma organização mais horizontal e funcional.

0 - O Papa - Francisco - nascido Jorge Mario Bergoglio - eleito em 13 março de 2013
O Papa detém a posição mais importante na Igreja Católica Romana e é o seu líder supremo. Segundo a crença católica, cada Papa é o sucessor de São Pedro, que recebeu as chaves do céu, do próprio Cristo e tornou-se o primeiro Papa. O Papa detém inúmeros títulos, incluindo o Bispo de Roma, Vigário de Cristo, e Primaz da Itália. Seus poderes e influências são vastas, e cada Papa é examinado de perto pela comunidade internacional;

1 A Secretaria de Estado - Tarcisio Bertone (15 Setembro de 2006 - dias de hoje) - o Carmelengo - preside a Santa Sé, geralmente conhecido como o "Vaticano", da Secretaria de Estado, que é o dicastério mais antigo e mais importante da Cúria Romana;



2 Congregações
2.1 A Congregação para a Doutrina da Fé
2.2 A Congregação para as Igrejas Orientais
2.3 A Congregação para o Culto Divino ea Disciplina dos Sacramentos
2.4 A Congregação para as Causas dos Santos
2.5 A Congregação para a Evangelização dos Povos
2.6 A Sagrada Congregação para o Clero
2.7 A Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica
2.8 A Congregação para a Educação Católica (em Seminários e Institutos de Estudo)
2.9 A Congregação para os Bispos
3 Os Tribunais
3.1 A Penitenciaria Apostólica
3.2 O Tribunal Supremo da Signatura Apostólica
3.3 O Tribunal da Rota Romana
4 Os Conselhos Pontifícios
4.1 O Conselho Pontifício para os Leigos
4.2 O Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos
4.3 O Conselho Pontifício para a Família
4.4 O Conselho Pontifício Justiça e Paz
4.5 O Conselho Pontifício Cor Unum
4.6 O Conselho Pontifício para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes
4.7 O Conselho Pontifício para a Pastoral dos Agentes de Saúde
4.8 O Conselho Pontifício para os Textos Legislativos
4.9 O Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso
4.10 O Conselho Pontifício para a Cultura
4.11 O Conselho Pontifício para as Comunicações Sociais
4.12 O Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização
5 O Sínodo dos Bispos
6 Os Escritórios
6.1 A Câmara Apostólica
6.2 A Administração do Patrimônio da Sé Apostólica
6.3 A Prefeitura dos Assuntos Econômicos da Santa Sé.
7 As Comissões Pontifícias
7.1 A Pontifícia Comissão para os Bens Culturais da Igreja
7.2 A Pontifícia Comissão "Ecclesia Dei"
7.3 A Pontifícia Comissão de Arqueologia Sacra
7.4 A Pontifícia Comissão Bíblica
7.5 A Comissão Teológica Internacional
7.6 Comissões interdicasterial
7.7 A Pontifícia Comissão para a América Latina
8 A Guarda Suíça
9 O Departamento do Trabalho da Sé Apostólica
10 As Academias Pontifícias
10.1 A Pontifícia Academia Cultorum Martyrum
10.2 A Academia Pontifícia eclesiástica
10.3 A Academia Pontifícia para a Vida
10.4 A Pontifícia Academia das Ciências
10.5 A Pontifícia Academia de Ciências Sociais



A Hierarquia em 3 classes da Igreja Católica Romana:

Varias dimensões nacionais: Não existem posições nacionais de poder na Igreja Católica, apenas bispos dentro de um país, que são iguais a todos os outros bispos do mundo.

Mundo - 1Papa - 2946 Bispos que trabalham com 2.946  dioceses (territórios) - 219.583 sacerdotes que trabalham dentro 219,583 Paróquias (igrejas locais);

Canadá - 1Papa - 72 bispos que trabalham com 72 dioceses - 5.717 sacerdotes que trabalham dentro de 5.716 Paróquias;

Toronto, Canadá - 1Papa - 1 Bispo que trabalha com uma diocese  - 223 sacerdotes que trabalham dentro de 223 Paróquias;

Hamilton Canadá - 1Papa - 1Bispo que trabalha com uma diocese - 121priests de trabalho a 121 Paroquias;


A - Observe que existem apenas três níveis de controle: líder Mundial, líder de Diocese e da Igreja Local.

B - Todos os pontos no gráfico abaixo são igrejas locais, com diferentes níveis de autoridade.

C - O ponto azul (onde o Papa prega todos os domingos) é a igreja local de São João de Latrão, que é a única igreja local do mundo a ter todos os três níveis de autoridade: a liderançaça Mundial, liderança de diocese e paróquia local.

D - Os pontos pretos são igrejas locais (sempre chamadas de "Catedrais", que é latim para "cadeira"), que têm bispos como seu pregador todos os domingos. Há 2.946 dessas catedrais (igrejas locais) na Igreja Católica atualmente. Há apenas um bispo para cada uma dessas "lideranças de diocese" igrejas mãe (Catedrais). Cada Bispo está localizado em uma igreja local simples (Catedral), que controla as outras igrejas locais (paróquias) dentro de seu território geográfico. Você vai notar que até mesmo a igreja local de São João de Latrão ( diocese de Roma) é superior a outras igrejas locais, exatamente da mesma maneira.

E - Os pontos vermelhos são as igrejas locais liderados por meros sacerdotes. Há 219.583 dessas igrejas locais na Igreja Católica atualmente. Um grupo dessas igrejas locais unidas sob a liderança de um único bispo de diocese.

F - Para descobrir quantas igrejas locais reais existem na Igreja Católica hoje é necessário adicionar o número de Paróquias (219.583) e o número de igrejas Diocese (2946), além de São João de Latrão (1). Assim, a matemática é a seguinte:

219,583   2946   1 = 222,530.

Isso significa que um católico romano pode participar de qualquer uma das 222.530 igrejas locais em todo o mundo. Mas cada católico romano poderia escolheu para participar de uma paróquia onde um padre prega todos os domingos, ou onde um bispo prega todos os domingos ou onde o Papa prega todos os domingos.
G - Desta forma, você pode ver que a Igreja Católica Romana é simples agrupamentos de igrejas locais com três diferentes níveis de autoridade.

Apóstolos organizaram a igreja - no ano 30-606 AD: o desenvolvimento histórico gradual dos Sistemas Papal e Patriarcal de Governo da Igreja centralizada a distância da organização encontrada na Bíblia.

Nomenclatura que descreve o cargo de presbítero:

A - Presbiter - vem de presbyteros (πρεσβύτερος), "ancião". - Ênfase na experiência;
B - Bispo - vem (επίσκοπος), a fiscalização
C - Pastor (Sheppard) - vem (Ποιμήν), termo metafórico (tomando conta de rebanhos) - Proteção;

A igreja da qual lemos na Bíblia foi organizada de uma forma muito simples. De forma geral foi ter dois ou mais homens qualificados supervisionando cada congregação ou igreja local. Estes homens poderiam ser designados por "presbitério". Cada homem deve cumprir diversas qualificações elevadas, o que a Bíblia relaciona em duas passagens. Presbíteros são os líderes espirituais de uma congregação. Eles também tomam conta das almas dos membros como um pastor.

Uma diocese  é uma área geográfica com um grupo de igrejas na mesma. Dirigida por um bispo. E todos eles, basicamente, captam o seu próprio dinheiro, através de coletas, e são responsáveis ​​pelo seu próprio orçamento.

Porque cada diocese  faz a maioria de suas próprias decisões de negócios ", a igreja está perdendo poder de compra, aquisição, economia de escala:

A - Cristo é a cabeça de cada igreja local. Não há liderança humana da igreja.
B - A Bíblia é o único credo escrito para cada igreja local, ao invés de um credo escrito pelo homem.
C - Cada igreja local é autônoma e auto-administrada. Sem interferência externa dos outros.
D - Sem laço organizacional entre as igrejas locais.
E - Nenhuma organização superior as igrejas locais.
F - A Bíblia usa Ancião, Presbítero, Supervisor, Bispo, Pastor, Padre alternadamente, e todos eles se referem a um único escritório na igreja.
G - As igrejas locais nomeam a sua própria pluralidade de presbíteros usando 1 Timóteo 3 e Tito 1 como diretrizes para as qualificações.
H - Anciãos têm autoridade apenas sobre os membros da igreja local, que não são membros de congregações fora.

3 - O logotipo -

Na véspera da Batalha da Ponte Mílvia, Constantino teve um sonho no qual viu uma cruz no céu, e talvez as letras gregas Chi e Rho (as duas primeiras letras de Christos) com ele. Constantino, em seguida, viu ou ouviu as palavras "por este sinal de que você deve vencer."



Papa Inocêncio IV (1243-1254) talvez tenha sido o primeiro ater um brasão pessoal, mas certamente foi o primeiro a ter um brasão completo com as armas foi o Papa Bonifácio VIII (1294-1303).

Até hoje Chi Rho nos lembra a Igreja Católica, por que:

Tem uma imagem forte, equilibrada, sem detalhes extras que atravancam o seu olhar;
É diferente e ousado no projeto, tornando mais fácil ver de relance;
A ausência de texto torna compreensível em todo o mundo;
Tem imagens gráficas que parece adequadas para a proposta do negócio;
Ele funciona bem com o nome da empresa;
Comunica-se o negócio claramente e
Tem boa aparência em preto e branco, bem como colorido.

4 - Aprenda a usar os meios de comunicação de seu tempo -

Ao invés de lançar protestos contra a imprensa, como muitas figuras públicas fazem, os papas usaram a mídia para entregar sua mensagem.

Durante a Idade Média, os Papas eram generais. Essa posição estratégica era a forma mais eficaz de lidar com as pessoas naquele momento.
Papa assistindo TV no apartamento papal - Palacio Apostolico do Vaticano

Pio XI foi o primeiro Papa a utilizar o poder das modernas tecnologias de comunicação ao evangelizar o mundo exterior. Foi ele que estabeleceu Rádio Vaticano em 1931,

O Papa João Paulo II se tornou papa em 1978, no mesmo ano que a televisão global instantânea se tornou disponível, e ele foi o Papa mais popular de todos os tempos da História.

Papa Bento XVI tuitou pela primeira vez em 12 de dezembro de 2012, e apesar de relativa inatividade no meio rapidamente chegou a 2,5 milhões de seguidores.

5 - Manter segredos comerciais Safe -

Um segredo comercial pode ser usado em qualquer negócio ou produto. Ele pode ser usado para fabricar um produto, ou pode ser uma parte dos métodos de comercialização e venda. Muitas empresas têm suas próprias listas de clientes zelosamente guardadas, e estas são consideradas segredos comerciais. O segredo do comércio é uma informação que não está disponível para o público. A melhor maneira de manter segredos comerciais em segredo é limitar a quantidade de pessoas que sabem sobre eles.

Edição antiga sobre Inquisição e à entrada do Arquivo Secreto Vaticano

Embora a Coca Cola diz ter um ingrediente secreto, a bebida é consumida regularmente por milhões de pessoas. O ingrediente secreto teria que ter passado por vários testes de segurança e saúde antes de ser considerada segura para o consumo. Embora a Coca-Cola tenha um segredo comercial, há certas pessoas que não trabalham na Coca Cola, que qual é este segredo.

O Arquivo Secreto do Vaticano (em latim: Secretum Archivum Apostolicum Vaticanum), localizada na Cidade do Vaticano, é o repositório central de todos as leis promulgadas pela Santa Sé. O Papa, tendo incumbência primordial até a sua morte ou renúncia, guardar os arquivos até o próximo sucessor Papal. Os arquivos também contêm os documentos de Estado, correspondências, livros de contabilidade papais, e muitos outros documentos que a igreja tem acumulado ao longo dos séculos. No século 17, sob as ordens do Papa Paulo V, os Arquivos Secretos foram desanexados  da Biblioteca do Vaticano, época na qual os estudiosos tiveram algum acesso muito limitado, e permaneceram absolutamente fechados a pessoas de fora até 1881, quando o Papa Leão XIII os abriu para pesquisadores , mais de mil dos quais agora examinam seus documentos anualmente.

Edição antiga de Dialogo di Galileo, História das perseguições aos Cátaros e outras publicações científicas estavam escondidas no Arquivo Secreto Vaticano


Estima-se que nos arquivos secretos do Vaticano tenham 52 milhas (84 km) de prateleiras, e 35 mil volumes somente em seu catálogo seletivo . "Os índices devem ser consultados na ‘Sala Index’ e consultados em próprio local. A publicação dos índices, em parte ou no seu todo, é terminantemente proibida." Os Arquivos contam com seus próprios estúdios fotográficos e de conservação.

6 - A importância da construção de um bom Conselho de Administração -

Durante o conclave, os cardeais ficam em uma pequena sala isolada do mundo exterior. Trata-se de uma micro comunidade tomando uma decisão de que terá um grande impacto.

O papel de um conselho de administração tem evoluído ao longo dos anos: em vez de reuniões de membros da família e do CEO em salas de conferência antiquadas e cheia de fumaça, as empresas inteligentes agora tratam o seu Board  como um conselho de anciãos, cuja base de conhecimento pode ajudar a definir o tom para a grande tomada de decisão.

Conselhos atinge o seu melhor quando fornecem orientação, liderança e visão a um nível superior.

7 - Como gerenciar a personalidade pública -

As figuras públicas têm administradores. O mesmo acontece com o Papa. Cada movimento seu é monitorado e coreografado. Assim também deve ser a sua atividade de mídia social. Os seus compromissos diários são propositais, com um resultado desejado.

8 - Como lidar com as crises -

A pior crise já vivida pela Igreja Católica, que teve inicio em 20 de setembro de 1870. Roma e o que sobrou dos Estados Papais foram anexados ao Reino da Itália, como resultado do rei Vítor Emanuel II da Itália 'processo di unificazione italiana.

Vaticano ficou sem receitas por quase 60 anos.

A crise terminou em 1929, quando foi estabelecida como um estado independente pelo Tratado de Latrão, assinado pelo Cardeal Secretário de Estado Pietro Gasparri, em nome do Papa Pio XI e pelo Primeiro-Ministro e Chefe do Governo Benito Mussolini em nome do rei Victor Emmanuel III. Naquela época Vaticano recebeu 92 milhões de dólares como indenização pela perda de soberania e território (valor de hoje 1,1 bilhões de dólares).
O papa não usa computador, todos os oficios são trazidos em pastas por seus dois secretários particulares no escritorio papal - pasta com documentos a serem assinados 'Alla Firma di Sua Santita'

Hoje em dia, a tarefa mais urgente do Papa Francisco será lidar com os escândalos sexuais - Ele precisa punir funcionários envolvidos em vez de protegê-los ou ocultá-los. As melhores empresas são rápidas para "proativamente demitir" malfeitores. Em segundo lugar, precisará tratar a sua reputação como o seu bem mais precioso através da elaboração de regras claras sobre o comportamento ético, insistindo a equipe a aderi-las e realizar campanhas de relações públicas agressivas.

a. Não demore. Mas não pense antes de agir.

Muitas vezes, a crise não é tão grande como se imagina ou apaga-se por conta própria;

b. Encontre perspectiva.

Quando algo dá errado, as suas emoções podem facilmente assumir o controle. Seus medos muitas vezes são agravados em sua cabeça e os piores cenários começam a atrapalhar seu julgamento. Tente evitar isso. Depois de ter atuado sobre o problema, é hora de ganhar perspectiva. Que, bem, é mais fácil dizer do que fazer;

c. Prepare-se agora para a próxima crise.

Prepare-se com antecedência para diversos resultados a um evento e tenha as melhores pessoas na equipe para que quando o inevitável aconteça, você poça responder com ações e não com emoções;

9 - Certifique-se de adotar medidas de acordo com a realidade do tempo que você está vivendo -

O grande exemplo foi a modificação do antigo calendário Juliano, admiravelmente próximo do comprimento real do ano, mas considerado como imperfeito. Eles chegaram à conclusão de que, em 1582, o calendário de César flutuou em um total de 10 dias fora do curso.

O Equinócio Vernal (quando o Sol entra em na constelação de Áries ) de 1582 dC aconteceu no dia 11 de março, no mesmo dia em que o sol lançou luz em uma marca específica numa sala, nao deveria acontecer esse mesmo fenômeno no ano seguinte, na mesma data e hora, porque a Terra leva exatamente 365,2425 dias para girar em torno do Sol. No calendário Juliano o ano foi erroneamente estimado em 365,25 dias.

Em 1582, o papa Gregório XIII ordenou o avanço do calendário em 10 dias e apresentou um novo dispositivo corretivo para reduzir ainda mais o erro: anos de século, como 1700 ou 1800 já não seria contado como os anos bissextos, a menos que eles fossem divisível por 400 (como 1600 ou 2000 ).

Em 1580 arquiteto bolonhês Ottaviano Mascherino que também construiu Palácio Apostólico, construiu a Torre dos Ventos do Vaticano, com o chamado 'Salão Meridiano', originalmente concebido para criar uma loggia para medir a precisão do calendário gregoriano.

'Salão do Meridiano' na torre o dos ventos no Vaticano - precisamente ao meio-dia do Equinócio Vernal a luz do sol atinge a marca no chão.


Ao meio-dia no equinócio da primavera, a luz solar passa através de um pequeno buraco na parede sul para projetar precisamente uma marca no piso de mármore meridiano, indicando o momento exato do equinócio vernal.

Este sistema é inegavelmente eficaz, e ainda está em uso oficial. O ano no calendário gregoriano difere do ano solar em apenas 26 segundos, esta é uma grande precisão, uma vez que a diferença é de um dia a cada 3.323 anos.
Mais recentemente, com a imposição de novas regras destinadas a garantir a transparência e a prestação de contas no Vaticano assuntos financeiros, da Prefeitura dos Assuntos Económicos começou a recuperar "o seu espírito original", disse o cardeal. O escritório agora supervisiona todos os assuntos econômicos do Vaticano, e trabalha para garantir que o negócio da Santa Sé é conduzido de forma honesta e eficiente.

Cardeal Bertone disse que, além de promover a transparência, o Vaticano também está trabalhando para reduzir os gastos, já que a crise econômica global provocou uma queda nas receitas disponíveis para o trabalho da Igreja.

Sem contabilidade sistêmica e divulgação, existe suficiente dúvida nestes dias sobre como o dinheiro está sendo gerenciado será que o faminto está sendo alimentado, o nu está sendo vestido e aqueles que precisam estão recebendo cuidados de saúde e educação ", diz Jim Post , professor de administração da Universidade de Boston.

Não há relatórios financeiros padrão para dioceses da igreja. Esta foi uma enorme frustração: É difícil descobrir como consertar o que está errado com os negócios da igreja se você não consegue descobrir o que está acontecendo com o dinheiro.

E, como a Igreja Católica recentemente descobriu, esta falta de transparência pode ter implicações muito mais drásticas.

10 - finanças corporativas experientes e qualificadas -

O Faturamento da Igreja Catolica não é oficialmente declarado, mas de acordo com a matéria na revista  ‘The Economist’ (17 de agosto de 2012 por Hemant Mehta) ‘A estimativa de gastos da igreja católica’, Metha estima os gastos dessa economia em 171,600,bilhões de dólares anuais, tambem estima que esse montante corresponde a 10% de seu faturamento - logo, estima-se que a igreja católica tenha um faturamento anual de aproximadamente 181,876 bilhões de dólares.

Em um esforço para conter a acumulação enorme dívida, o primeiro-ministro Mario Monti fez uma mudança histórica no código tributário para aumentar a receita: Desde janeiro de 2013, a Igreja Católica Romana não é mais isenta de impostos sobre a propriedade na Itália.

A igreja Católica da Itália tem 110 mil propriedades, no valor de cerca de 9 bilhões de euros, o custo anual pode ser de até 720m euros (US $ 945m; £ 598m) de acordo com órgãos públicos municipais.

Muitos sistemas fiscais em todo o mundo oferecem isenção total do imposto para organizações de caridade reconhecidas, tais como a Igreja Católica, mas a decisão tomada pelo governo italiano deve provocar questionamento sobre o propósito e a validade da isenção em vários outros países.

A questão sobre quanto dinheiro a Igreja Católica lida e qual é o tamanho de seus ativos sempre intrigou a todos. A afirmação de que eles têm dinheiro suficiente para resolver todos os problemas do planeta, tais como alimentar os famintos, educar os pobres, vestir os nus ... calçar os descalços, etc é assunto de discussão.

Só a Capela Sistina foi estimada em US $ 800 mi, sem contar os inestimáveis presentes recebidos pelos reis e rainhas, os  tesouros da Basílicade São Pedro, artes dos Museus e pertences pessoais do Papa.

Não se pode vender Vaticano, ou suas riquezas, porque todo o Estado é um Património Mundial da UNESCO, e seria extremamente difícil de avaliar e encontrar compradores.

O Instituto para as Obras de Religião (italiano: Istituto per le Opere di Religione - IOR), conhecido como Banco do Vaticano, é uma instituição privada dirigida por um CEO que se reporta diretamente a um comitê de cardeais, e por fim ao Papa . Uma vez que seus ativos não são considerados propriedade da Santa Sé, não são supervisionados pela Prefeitura dos Assuntos Econômicos da Santa Sé, e ela está listada no Anuário Pontifício não em "Santa Sé" ou "Estado da Cidade do Vaticano".

Por outro lado, nenhum dos 832 habitantes do Vaticano pagam imposto têm salários exorbitantes ou ganham bônus anual. Os ganhos do Vaticano vem dos ingressos de entrada, moedas de euro, duas pequenas lojas e emissão de selos.

11 - Muito empenho na formação dos funcionários - 

O processo de formação, independentemente das ordens, muitas vezes é dividido em cinco "fases"; observador/aspirante, postulante, noviço, professos temporários, e professos solenes (ou votos perpétuos). O processo de aquisição de sabedoria dura geralmente de 5 a 8 anos, até a profissão solene.

A pessoa é livre para sair a qualquer momento, antes da profissão solene (é importante observar que, embora existam essas semelhanças externas, muito ainda depende da dinâmica individual dentro de cada comunidade, que é regida em grande parte por seu superior.

No entanto, todas as ordens tem características comuns que são as marcas da vida religiosa, tais como; oração comunitária (principalmente no Ofício Divino), refeições comunitárias, trabalho/tarefas diversas, oração privada, meditação, estudo, e, é claro, os votos religiosos (tipicamente os votos dos conselhos evangélicos; pobreza, castidade e obediência).

Dentre estas ordens, podemos dividi-las em seu aspecto pratico em duas classificações:

Ordens Contemplativas

"Ordens contemplativas" (Beneditinos, Carmelitas, Trapistas, Cartuxos, Cistercienses, etc.) são aquelas que se concentram principalmente em aspectos introspectivos da conversão; a crescer em união com Nosso Senhor, pelo amor de Deus e salvação das almas.

Ordens Ativas

As “Ordens Ativas” (Franciscanos, Dominicanos, Jesuítas, Missionárias da Caridade, etc.) são aquelas que tendem a ter mais interação direta com o mundo do que ordens contemplativas. Além da oração, estas podem dedicar muito de seu tempo ao "trabalho" para apostolados externos (ensino, pregação, cozinhas, missões, retiros de jovens, apostolados de mídia, etc.).

No que diz respeito ao conteúdo desses estudos, estima-se que existe um limite sobre o que os membros da igreja devem conhecer. Quanto mais o aluno cresce em seus estudos, mais discernimento atinge e pode ter acesso a literatura mais exclusiva. Mas somente uns poucos da cúpula tem acesso ao material proibido, estudos que são de muita sensibilidade às bases da igreja.


Acredita-se que para se manter sigilo sobre documentos secretos do Vaticano, o trabalho de tradução e estudo é divido e delegado às três ordens ativas mais importantes,(1/3 aos Franciscanos, 1/3 aos Dominicanos e 1/3 aos Jesuítas) pois assim as partes teriam informação fragmentada e não conseguiriam compor a visão geral, só permitida à alta cúpula da igreja.

o Futuro

Luiz Pagano - investigação sobre a analogia da Igreja Católica em comparação com a gestão de empresas multinacionais  -  assuntos de Negócios Internacionais, 1998

Papa Francisco será o líder espiritual dos católicos do mundo. Ele também vai liderar um império financeiro multibilionário. E ao analisar de uma perspectiva corporativa, a Igreja Católica está em dificuldades.

O trabalho feito por sacerdotes católicos na América Latina, Ásia e África, onde o crescimento no número de membros da igreja é superior deve continuar. Mas se a igreja fosse um negócio, a Santa Sé deveria transferir parte dos trabalhadores existentes em outros locais do mundo, para a América do Norte (Nos EUA, a Igreja Católica não tirar vantagem de seu tamanho), e alguns outros países ricos.

Eu não estou tentando ensinar o Pai Nosso ao vigário, mas as lições aqui apresentadas devem ser levadas em consideração se você tenta entender e gerir uma empresa multinacional.

Apendice - Linha do Tempo e refêrencias da cultura autal

Cristianismo nasce
- c. 30-33: Jesus é crucificado em Jerusalém. Pentecostes dá início às comunidades domésticas.

- c. 50-100: Cartas de Paulo circulam. Evangelhos são escritos. *Evangelho de Maria (texto gnóstico atribuído a Maria Madalena) circula no século II, mostrando uma tradição onde Maria é discípula e transmissora de revelações — rejeitado depois pela Igreja oficial.

- 64: Perseguição de Nero em Roma.

- c. 270-271:Antônio do Egito vai para o deserto da Nítria. Começa o monasticismo eremítico — os *Padres do Deserto*.

- 320:Pacômio funda o primeiro mosteiro comunitário em Tabenesi, Alto Egito. Nasce o cenobitismo, regra com 194 artigos.

313-600 — Império, concílios e rachaduras no Oriente

- 313: Édito de Milão (Constantino). Fim das perseguições.
- 325: Concílio de Niceia. Condena Ário.
- c. 344-421:Maria do Egito, ex-prostituta de Alexandria, atravessa o Jordão e vive 47 anos sozinha no deserto. Vira o modelo feminino do ascetismo — a "mãe do deserto" que equilibra os pais do deserto.
- 381: Concílio de Constantinopla.

- 451:Concílio de Calcedônia. Define Cristo com duas naturezas. Igrejas do Egito, Síria e Armênia rejeitam — nasce a família das igrejas miafisitas: coptas no Egito, jacobitas na Síria, armênios. Eles mantêm língua, liturgia e teologia próprias até hoje.
- 527-565:Imperador Justiniano I manda construir o Mosteiro de Santa Catarina no sopé do Monte Sinai, entre 548 e 565. É o mosteiro cristão em uso contínuo mais antigo do mundo, guardião de manuscritos gregos, siríacos e árabes no meio do deserto.

480-547— O nascimento dos Beneditinos

c. 480: Bento (Benedito) de Núrsia nasce na Úmbria. Após estudar em Roma e se desiludir com a cidade, torna-se eremita em Subiaco.

c. 529: Bento funda o mosteiro de Monte Cassino, entre Roma e Nápoles, criando a primeira ordem organizada do Ocidente. Eram alfabetizados e mantinham o Scriptorium, uma biblioteca cujo lema era "ora et labora" (orar e trabalhar). Os monges não podiam possuir nada; tudo era comunitário — mas, ironicamente, a comunidade tornou-se muito rica.

600-1054 — Cristandade se espalha e se divide

- 590-604: Gregório Magno organiza a Igreja latina.
- 800: Coroação de Carlos Magno.
- 1054: Grande Cisma. Roma (latina) e Constantinopla (grega) se excomungam.

1100-1300 — Hereges, mendicantes e deserto urbano

- Século XII: Surgem os CÁTAROS (ou albigenses - (do grego καϑαρός, katharós, "puro") no sul da França. Dualistas — pregam que o mundo material é obra de um deus mau, rejeitam sacramentos, pregam igualdade entre homens e mulheres, vivem em pobreza voluntária. Atraem milhares desiludidos com o clero rico.

- 1208-1229: Cruzada Albigense. O papa manda exércitos contra os cátaros. Cidades como Béziers são massacradas.

- 1209: Francisco de Assis funda os franciscanos. 

- 1216: Domingos de Gusmão funda os dominicanos — justamente para pregar contra os cátaros com argumento e pobreza, não com espada.

- 1231: Inquisição papal entregue aos dominicanos para caçar cátaros sobreviventes.
- 1300-1307:  Dolcinianos de Fra Dolcino no norte da Itália — herdeiros radicais da mesma ideia de pobreza apostólica. São esmagados em 1307.

1300-1517 — Crises

- 1309-1377: Papado em Avignon.

- 1378-1417: Grande Cisma do Ocidente.

1517-1800 — Reformas

- 1517: Lutero. 1534: Anglicanos. 1545-1563: Concílio de Trento.

- 1945: Descoberta de Nag Hammadi no Egito — biblioteca copta com Evangelho de Tomé, de Filipe e de Maria. Os textos mostram o cristianismo diverso que os bispos de Niceia e Calcedônia tentaram unificar.

1800-hoje (atualizado 02 de maio de 2026)

- 1870: Vaticano I. 1929: Vaticano.

- 1962-1965: Vaticano II abre diálogo com ortodoxos e coptas.

- 2013-2025: Francisco visita o Egito (2017) e reza com o papa copta Tawadros II — primeira reconciliação formal depois de 1.500 anos desde Calcedônia.

- 2025: Morte de Francisco, eleição de Leão XIV.

---

Extras:

- Monges do deserto (Antônio, Pacômio, Maria Egípcia) criaram o modelo de fuga do mundo no século III-IV, antes dos mosteiros beneditinos.

- Coptas se separam em 451 e guardam até hoje a Bíblia e textos gnósticos no Egito.

- Santa Catarina (Sinai) é a ponte viva entre Império Bizantino e o deserto, construída por Justiniano.

- Cátaros são a heresia dualista do século XII que fez a Igreja inventar pregadores mendicantes e a Inquisição.

- Maria "escriba" aparece em dois lugares: na tradição oficial como Maria do Egito, penitente do deserto; e nos textos proibidos como Maria Madalena, porta-voz de revelações no Evangelho de Maria do século II.

Duas Ordens Iniciais

O cátaros atacavam os padres ricos. Eles pregavam no sul da França no século XII como um movimento dualista: o mundo material era obra de um deus mau, por isso rejeitavam propriedade, juramentos, casamento e, sobretudo, a riqueza da Igreja. Os sacerdotes cátaros, os perfecti, viviam sem bens, não cobravam dízimo e aceitavam mulheres como pregadoras. Para muita gente pobre, isso parecia muito mais "evangélico" que bispos com castelos.

A Igreja respondeu em duas frentes, ao mesmo tempo:

1. A espada — a Cruzada Albigense (1209-1229). O papa Inocêncio III, depois que um legado foi assassinado, chamou nobres do norte da França para uma cruzada contra cristãos. Cidades como Béziers foram massacradas. Era uma resposta política e militar, não teológica.

2. A palavra — os mendicantes. Não foi um plano de marketing criado depois, mas coincidiu:

  - Domingos de Gusmão estava justamente em Toulouse em 1206, vendo os legados papais falharem porque chegavam com cavalos e ouro. Ele convenceu os legados a largar tudo e pregar a pé, vivendo de esmolas. 

Daí nasceu a Ordem dos Pregadores (dominicanos), aprovada em 1216, com a missão explícita de disputar com os cátaros usando estudo e pobreza voluntária.
  - Francisco de Assis começou em 1209 na Úmbria, sem ligação direta com os cátaros, mas com a mesma intuição: voltar à pobreza radical de Cristo, só que dentro da obediência ao papa. Os franciscanos foram aprovados quase na mesma época.

Então não foi "a Igreja criou duas ordens para fingir pobreza". Foram dois homens que acreditavam de verdade na pobreza, e Roma percebeu que aquilo podia ser útil contra a crítica cátara.

Por que, mesmo com franciscanos e dominicanos pobres, os cátaros continuaram sendo perseguidos?

Porque a divergência não era só sobre dinheiro. Os cátaros negavam pontos centrais da doutrina católica:

- diziam que Cristo não teve corpo real,
- rejeitavam a Eucaristia, o batismo com água, a cruz,
- diziam que a Igreja de Roma era a igreja do diabo.

Para a teologia medieval, isso era heresia, não reforma. Mesmo um dominicano vivendo descalço não podia aceitar aquilo. Por isso, depois da cruzada, a Inquisição (entregue aos dominicanos a partir de 1231) continuou caçando os últimos cátaros até o início do século XIV.

Resumindo: — crítica à riqueza → resposta com pobreza mendicante → perseguição continua — mas o motor não foi só hipocrisia. Foi uma disputa sobre o que significava ser cristão: os cátaros queriam uma igreja sem matéria; franciscanos e dominicanos queriam uma igreja pobre, mas ainda com sacramentos, papa e encarnação.

Salvatore de O Nome da Rosa

No romance O Nome da Rosa, de Umberto Eco — e também no filme de 1986, onde é vivido por Ron Perlman — há um personagem que resume sozinho toda aquela Idade Média de fome, heresia e medo: Salvatore.

Salvatore, ex dulciniano na fictícia abadia beneditina no norte da Itália

Ele aparece na abadia como um monge corcunda, de rosto e corpo quase "bestial", ajudante do celeireiro Remigio da Varagine. Não é um monge de biblioteca. É um sobrevivente. Salvatore nasceu camponês no Monferrato, no norte da Itália, e ainda jovem entrou para os grupos de pregadores errantes que queriam viver como os apóstolos. 

Acabou seguindo Fra Dolcino, o líder dos dolcinianos — um movimento de francicanismo radical, milenarista que, depois da morte de seu fundador Gerardo Segarelli em 1300, formou uma comnidade armada nas montanhas do Peioonte, Itália para  atacara os ricos padres. O Papa Clemente V enviou uma cruzada para dizimar os Ducinianos.

Diferentemente dos Cátaros, dualistas, acetitavam em Deus e diabo, os Dulcinianos eram apocalípticos, acreditavam que o fim estava chegando.

Quando a cruzada papal esmagou os dolcinianos em 1307, Dolcino foi queimado em Vercelli e seus seguidores foram caçados. Salvatore e Remigio escaparam e conseguiram abrigo na abadia beneditina, onde fingiram ter voltado à obediência. Por fora, varriam a cozinha; por dentro, carregavam o trauma.

É por isso que ele fala aquela mistura estranha que Adso descreve como "todas as línguas e nenhuma". Não aprendeu latim no mosteiro — aprendeu na estrada. Ao longo de anos fugindo pela Itália, Provença e sul da França, juntou retalhos de latim macarrônico, dialeto piemontês, provençal e francês. Era a língua de quem nunca teve pátria, só grupos heréticos.

E, sem querer, é justamente essa língua quebrada que dá a William de Baskerville duas das chaves do mistério:

1. Quando solta o grito "Penitenziagite!", Salvatore repete sem pensar a palavra de ordem dos dolcinianos — uma corruptela popular de poenitentiam agite, "fazei penitência". William reconhece na hora: só quem tinha marchado com Dolcino usava aquele grito. É a prova de que havia ex-heréticos escondidos na abadia.

2. Dias depois, tentando falar de um cavalo, ele diz "tertius equi" em vez do correto tertius equus ("o terceiro cavalo"). Adso repete a frase por acaso, e William entende que o enigma deixado por Venâncio sobre o acesso ao finis Africae jogava com o genitivo errado. Aquele erro gramatical aponta para a passagem secreta da biblioteca onde estava o segundo livro da Poética de Aristóteles, envenenado por Jorge.

Salvatore não é o assassino, nem o sábio. É o resto humano de uma Europa onde camponeses viravam hereges por fome, onde a Igreja respondia com cruzadas e com ordens mendicantes, e onde um homem podia atravessar meia vida falando uma língua que ninguém entendia — até que, por um tropeço, ajudasse a desvendar um crime.



quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Placas de Carros do Mundo


O Sr. Tamashiro teve problemas quando tentava comprar um Toyota Camry no Japão, a negociação quase deu errado devido a um pequeno detalhe. Sua chapa de matrícula do carro carregava os números 4219 (shi ni iku), que em japonês tem o mesmo som de "você vai morrer".
Os números têm um significado grande, uma vez que os escreve em letras japonesas (kanji). O número mais temido no Japão e na China é quatroque significa a morte em ambos os países. Mas o Sr. Tamashiro só tinha de pagar algum dinheiro extra para mudar o número da placa e ter o negócio fechado.

Placas de automóveis sempre inspiraram curiosidade e admiração, e podem mostrar algumas particularidades intrínsecas de alguns países. Jeroen Coninx de 31 anos, é um aficionado em placas do carro, ele traz em seu site  licenseplatemania.com placas de mais de 100 países, "Minha mãe sempre disse que eu poderia dizer onde um carro vem antes mesmo de eu sequer saber ler."

A história das placas de licença começou no mesmo tempo em que carruagens foram substituídos por automóveis, que aparecem no primeiro período da transição do cavalo, de 1890 a 1910. A Holanda foi o primeiro país a introduzir uma placa de licença nacional, chamado pela primeira vez uma "licença de condução", em 1898. As primeiras licenças eram simplesmente placas com um número, começando em 1. No dia 08 de agosto de 1899 a contagem  já estava em 168. Quando os holandeses escolheram uma forma diferente para o número das placas em 15 de janeiro de 1906, a última placa emitida foi 2065.

A padronização das placas veio em 1957, quando os fabricantes de automóveis chegaram a um acordo com os governos e as organizações internacionais de normalização. Enquanto peculiares variantes locais ainda existiam, haviam três padrões básicos em todo o mundo:

- 12 por 6 polegadas (300 mm por 150 mm) - Usado na maioria das Américas.

- 20,5 por 4,5 polegadas (520 mm por 110 mm ou seja 120) - Usado na maior parte dos países europeus e muitos de seus antigos territórios ultramarinos.

- 14,5 por 5,3 polegadas (372 mm por 135 mm) - Usado na Austrália e alguns outros países do Pacífico, a meio caminho entre as dimensões dos outros dois padrões, já que as placas do Hemisfério Ocidental porém mais altas do que as européias.

Alguns países permitem a re-matrícula do veículo com placas "pessoais" ("vaidade" ou "marcas de preferência") . Quando o veículo é destruído ou exportado para um país diferente será necessária o novo registro no país de importação. China exige a re-matrícula de qualquer veículo que cruza as fronteiras provenientes de outro país, como visitas turísticas terrestres de férias, independentemente da quantidade de tempo que deve permanecer lá, isso tem que ser organizado com aprovação prévia.

Acredite ou não, placas inspiraram Sr. Coninx e sua esposa Eva a fazer o que deve ser chamado de "turismo de chapa de matrícula", ele tem viajado o mundo inteiro apenas para tirar algumas boas fotos de placas, "As fotos de placas são tomadas em qualquer lugar que podia , na Bélgica ou em outro lugar. Viajar é, portanto, muito importante para mim, não só por causa das placas, também porque eu realmente gosto de ver o mundo ".

Vehicle registration plates of Argentina
Vehicle registration plates of Argentina
Vehicle registration plates of Brazil
Vehicle registration plates of Brazil
Vehicle registration plates of Japan
Vehicle registration plates of Japan
Vehicle registration plates of UK
Vehicle registration plates of UK
Vehicle registration plates of Ohio - USA
Vehicle registration plates of Ohio
Vehicle registration plates of Russia
Vehicle registration plates of Russia
Vehicle registration plates of wyoming - USA
Vehicle registration plates of Wyoming

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Nossa percepção do mundo



O ditado "a ignorância é felicidade" pode ser facilmente ser provado como errado ao percebemos que a nossa civilização têm um maior nível de conforto material fornecido pelas últimas conquistas tecnológicas, nossa expectativa de vida é muito maior do que a dos nossos antepassados, estamos viajando por todo o mundo e estamos nos divertindo muito, isso tudo porque os nossos cientistas sempre encontraram prazer em descobrir cada vez mais.




Lisa Simpson provou estar errada quando disse "Quando a inteligência cresce, a felicidade desce. Veja, eu fiz um gráfico. "Os Simpsons, episódio 257"HOMЯ".

read this article in English

Assim sendo, a chave para o nosso desenvolvimento está no conhecimento do mundo que nos rodeia. Cada animal no planeta tem ferramentas diferentes para estes fins; esses "órgãos dos sentidos" variam muito de animal para animal e proporcionam-lhes diferentes interpretações.

Como é que um verme de um milímetro perceber o mundo ao seu redor?

Sabemos que temos uma percepção muito melhor do mundo ao nosso redor do que um verme - a questão é - são os nossos sentidos a melhor ferramenta para entender o mundo?

Talvez fenômenos estranhos, como a manifestação de fantasmas, aparições de OVNIs e precognição são meros eventos naturais, que nossos órgãos sensoriais, juntamente com o discernimento de nosso cérebro não nos permitem entender.

Um cão não tem idéia da enorme quantidade de informação que existe em uma biblioteca e pode interpretar a um tiro de espingarda como a "ira dos deuses humanos". E um verme então, este não faz a menor idéia do que seja uma ponte.

Talvez quando encontramos um ser vivo muito mais avançado e perguntarmos a ele sobre fantasmas e OVNIs, sua explicação seria extremamente difícil para nós entendermos. Podemos ter a mesma dificuldade de entender suas explicações como um cão tentando aprender a projetar e construir uma ponte usando software avançado e tecnologia de última geração.
Sebastian Stoskopff, L'été ou Les cinq sens - July 13, 1597 – February 10, 1657).

A consciência humana ainda esta num estágio "experimental" - é uma aquisição muito recente da natureza. A vida começou na Terra há 3,5 bilhões de anos, mas só ficamos conscientes a cerca de 6000 anos atrás (se tomarmos a escrita como primeira manifestação de consciência ). Este é um assunto pouco abordado pela ciência, pois o misoneísmo nos faz buscar consolo na religião, que nos da uma maior sensação de conforto.

Existe em nosso planeta um animal que pode nos ajudar melhor a compreender como interagimos com o nosso universo, em 1963, Sydney Brenner propôs que o pequeno nemátodo chamado Caenorhabditis elegans deveria ser considerado o perfeito modelo de organismo para a investigação científica de desenvolvimento animal e de comportamento. Com cerca de 1 mm de comprimento, os C elegans não são parasitas, são seres de vida livre, passam 14 horas como embrião, vivem no solo e se alimentam de bactérias. Foram os primeiros organismos multicelular que os cientistas conseguiram seqüenciar os códigos genéticos por inteiro.

C. elegans tem dois sexos: hermafroditas e masculino. Um hermafrodita produz espermas quando está em seu estágio larval e gera óvulos em estágio adulto. Um macho só pode produzir esperma. Os machos são um pouco menores do que os hermafroditas.
a faixa de percepção eletromagnética que temos é extremamente pequena

A percepção de que um Caenorhabditis elegans tem do mundo é muito mais simples do que a nossa. Enquanto este verme tem apenas o sistema somato sensorial, os seres humanos têm os tradicionais cinco sentidos de Aristóteles; ouvimos 20hz 20,000 Hz, enxergamos 400-790 THz (é bom que se diga que a faixa de percepção eletromagnética que temos é extremamente pequena, veja gráfico comparativo acima) temos o sentido do olfato, tato e paladar, e alguns outros, como nocicepção (dor ); equilibriocepção (equilíbrio); propriocepção e cinestesia (movimento articular e aceleração); sentido de tempo; termocepção (diferenças de temperatura) e, possivelmente, uma magnetocepção adicional fraca (direção), e nós temos um cérebro muito sofisticado para analisar todos esses dados.

O processo de percepção começa com um objeto no mundo real, denominado o estímulo distal ou objeto distal. Por meio de luz, som ou outro processo físico, o objeto estimula os órgãos sensoriais do nosso corpo. Esses órgãos sensoriais transformam essa energia de entrada em atividade neural - um processo chamado transdução. Este padrão bruto da atividade neural é chamado de estímulo proximal. Estes sinais neurais são transmitidos para o cérebro e processados. A recriação mental resultante do estímulo distal é a percepção. Percepção às vezes é descrita como o processo de construção de representações mentais de estímulos distais, através de informações disponíveis nos estímulos proximais.

O Caenorhabditis elegans tem cerca de 302 neurônios no cerebro/todo sistema nervoso, com ~ 5000 sinapses (Os seres humanos têm cerca de 85.000 milhões de neurônios no cérebro/todo sistema nervoso, com ~ 1014-1015  sinapses).. O sistema nervoso é, de longe, o órgão mais complexo do C. elegans, cerca de um terço de todas as células do corpo (302 de 959 no adulto hermafrodita para ser preciso) são neurônios. 20 desses neurônios estão localizados dentro da faringe, que tem seu próprio sistema nervoso.

C. elegans não tem olhos, mas eles são afetados pela luz ultravioleta através de seu corpo transparente, eles devem reagir à radiação, a fim de não serem expostos a ela.

Os animais mais complexos têm intrincados sistemas de percepção que respondem a muitas características diferentes de seu ambiente - insetos, apesar de seus olhos impressionantes, são mais sensíveis a rastros de produtos químicos; morcegos são cegos para a luz, mas respondem a pulsos de sonar, cães e porcos depender mais de cheiro do que a visão para a detecção do mundo.

Animais não-humanos podem possuir sentidos que estão ausentes nos seres humanos, tais como eletrorreceptividade e detecção de luz polarizada.

Muitos animais (salamandras, répteis, mamíferos) têm um órgão vomeronasal que está conectado à cavidade bucal. Nos mamíferos é usado principalmente para detectar feromônios para marcar seu território, trilhas e estado sexual. Répteis como cobras e lagartos fazem uso extensivo deste como um órgão de recepção olfativa através da transferência de moléculas de aroma para o órgão vomeronasal, tendo as pontas da língua bifurcada. Nos mamíferos, é muitas vezes associado a um comportamento especial chamado Flehmen caracterizado pela elevação dos lábios. O órgão é vestigial em humanos, pois não foram encontrados neurónios associados a este, logo não proporcional qualquer entrada sensorial em seres humanos.
Cães não vão a bibliotecas para ler, vermes não constroem pontes e o homem ainda crê que diversos fenômenos naturais são sobrenaturais. Todos nos temos limitações de percepção e consciência

Quais deveriam ser os próximos passos para a evolução dos seres humanos

O ponto de partida para avaliar o que nos faria mais inteligentes seria, melhorando o nosso cérebro. Mas os cientistas insistem em dizer que o tamanho do canal de nascimento é o fator que em última análise limita o tamanho do nosso cérebro. Para isso eu tenho a resposta apropriada:
Da mesma forma que órgãos como os pulmões e o coração estão protegidos por uma armadura óssea chamada de caixa torácica, que é deformada no momento do nascimento, permitindo a passagem pelo canal do parto e então retornando ao normal, o cérebro poderia estar dentro dessa mesma estrutura (se esta alteração morfológica acontecesse, nós nos pareceríamos com  Blêmias - rsrsr).

Mas qual benefício teríamos se tivéssemos um cérebro maior? - Eu acredito que a modificação mais importante seria na nossa comunicabilidade, já que a nossa necessidade social deverá ser muito maior.

Segundo o Dr. AK Pradeep, em seu livro "O Cérebro Consumista: Segredos para vender para a mente subconsciente", recebemos uma quantidade enorme de informações em nossos cérebros, mas temos grande dificuldade de processá-las de forma consciente e uma dificuldade ainda maior para comunicá-las.

Dr. Pradeep diz que nós recebemos cerca de 11 milhões de bits através de nossos sentidos, mas apenas processamos conscientemente cerca de 40 bits por segundo.

E quando temos que contar uma experiência recebida em nosso cérebro, temos que traduzir estes bilhões de bits em poucas palavras, tarefa extremamente sintética que permite que milhões de informações sejam omitidas e também permite erros e ruído de comunicação.

Assim, o nosso próximo passo na resposta evolutiva seria 'Homo blemmyae'. Em seu grande cérebro teria bilhões de organelas de transmissão e recepção neuronal, e dessa forma, seria capaz de praticar telepatia.
Blemya Talk Show - Talvez monstros como a Blemya nos faça compreender melhor os monstros como a Blemya.
Uma vez que podemos interagir diretamente na mente de nossos semelhantes, a falta de confiabilidade seria eliminada, a sensação de dor de nosso companheiro nos afetaria diretamente, portanto, eliminaríamos todas as coisas que causariam sofrimento aos outros, tais como corrupção, traição , etc. Também eliminaríamos a pobreza, a indiferença e a fome, já que não queremos sentir os efeitos desses males emitidos por alguém próximo a nós.

Esta seria chamada a era do "Homo blemmyae collectivum '.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Lenda da Praia da Sununga e da gruta que chora

A índia Potira se encantou com a serpente da gruta da Sununga


Lendas da Sununga e da Gruta que Chora

A Praia da Sununga e também a gruta chora e despeja suas gotas de água sobre o visitante que grita sempre mexeu com o imaginário de seus visitantes. As lendas que cercam esta gruta tem em comum a figura de uma enorme serpente que emite um estridente barulho - Cyninga em Tupi-Gurani antigo, modificado para Sununga nos dias de hoje significa forte e estridente barulho, talvez o barulho emitido pelo animal mítico.
A primeira lenda da Sununga foi contada pelo historiador Francisco Martins dos Santos em artigo no jornal santista A Tribuna, em 7 de janeiro de 1951, página 17 (2º caderno), com ortografia atualizada nesta transcrição:

A gruta que chora

A casa do Zé do Barro estava cheia de luzes naquela noite morna de agosto. Sanfonas e violas gemiam lá dentro e parecia que toda a gente do Itaguá, do Tenório, da Praia Grande, das Toninhas e dali, da Enseada, comparecera aos fandangos daquele ano.

Os cantadores do Divino já se haviam ido para os lados de Santa Rita, mas o redeiro emendara Folia aproveitando o pretexto.

- Disgraça pôca é bobage... o pêxe tá dando... sêo Macié tá comprando... bamo bebê... bâmo dançá minha gente!...

Era um filósofo o Zé do Barro, e aquele rancho grande, logo atrás da praia, entre aglomerados de abricós e cajueiros, com suas varandas largas em torno e suas janelas sempre abertas, claro, alegre, cheio de flores e de passarinhos, era bem o seu retrato de caiçara risonho e amigo de todo mundo.

Um cheiro bom de ubatubana corria pela casa e saía lá fora, entre o estrupido da arrelia e o estrepitar das canecas.

Zé do Barro não parava, e ria, e falava com um, com outro, animava os músicos, atirava piadas aos amigos, brincava com as damas e não se esquecia de uma talagada de vez em quando. Era um pai da vida, que se alegrava com as alegrias alheias. Seus olhos deram no Antonio Laurindo de Santa Rita:

- Antonio Laurindo! O dotô que vai pra Sununga tá hí... Bâmo pra ele uma dança de S. Gonçalo que ele qué bê! Cadê o Parú? Esse capeta que puxe a gente!...

O doutor Avelino, visitante de São Paulo, lá estava de fato, na varanda da frente, debruçado na janela, a atiçar o Zé do Barro com olhares de lembrança, no sentido da dança que não conhecia.

Dali a instantes, Antonio Laurindo e o Parú, tocados pelo seo Renê, um francês-caiçara do Taguá, apareceram no meio da sala, serenando a arrelia e arrumando os pares e as coisas para a gonçalina. A imagem do santo logo surgiu, trazida lá do fundo do rancho, enfarruscada, como se viesse do fumeiro, e pouco depois aparecia num dos cantos da sala, sobre um soco improvisado, para presidir à função.

A dança começou com a cantoria de sempre e os pares em desfile e cumprimentos rasgados, de busto inteiro, diante do santo:

Indios Tupis a bordo de um Ubá - tipo de canoa feita de um tronco de árvore.

São Gonçalo d'Amarante...
São Gonçalo d'Amarante...
Casamenteiro das velhas
Casamenteiro das velhas... âããhhh

Por que não casais as moças...
por que não casais as miças...
Que mal bos fizeram elas
Que mal bos fizeram elas... ãããhhh

Oh meu São Gonçalo
Meu São Gonçalinho
Que come o meu pão...
Que bebe o meu binho...

O doutor Avelino se divertia com o canto fanhoso da caiçarada foliona, com os remelexos e bamboleios dos pares, o zangarreio das violas e, por fim, a agitação das umbigadas, na fase aguda da dança tradicional.

Uma voz chamava o visitante:

- Sô dotô... Sô dotô... Pra que hora quereis a canoa aminhâ?

Doutor Avelino voltou-se; era o remeiro do Maciel, o dono das canoas "de frete".

- Logo cedo, às sete, seo...

- Puruba sim sinhô, pra bos sirbi!

- Pois é, seo Puruba, às sete está bom... mas diga ao seo Maciel que mande junto aquele camarada que conhece a história da gruta que nós vamos ver, entendeu?

- Sim sinhô, sô dotô... aquelezinho que conhece é meu mano, sabeis? Ele é que é o Puruba de berdade... - e o praiano desapareceu em seguida, nas sombras do pequeno bosque.



Zé do Barro, estabanado, a oitenta graus de pressão da ubatubana, chegava naquele instante junto a janela da varanda.

- O sinhô gostô do S. Gonçalo, dotô?

- Se gostei, meu amigo; seu pudesse eu viraria caiçara como vocês... A vida é muito mais bonita onde e como vocês a vivem...

Doutor Avelino falava como quem estivesse saturado do grande meio e seus olhos tinham lampejos de inveja cheia de esperança. Zé do Barro ficou ainda mais amolecido com as palavras do doutor, e enquanto este se retirava para descansar, ele ficava ali mesmo, debruçado na janela, os olhos muito abertos para a noite, para o mar, para o céu, vendo tudo irisado pela inspiração alcoólica, ouvindo vozes aveludadas sobre as águas e pelo espaço sideral.

Pela note a dentro foi indo o fandango bulhento, do praiano feliz que tinham um rancho, uma rede de pescaria, uma janela para olhar a natureza trescalante, e um coração para sonhar...

No dia seguinte, bem cedo, lá estava o doutor Avelino à frente do seu pequeno bando, fazendo hora na praia, olhando o mar manso, espelhado, enrubescido do primeiro sol, a brincar com os pés nas maretas, a revolver as conchas na areia, a enamorar-se daqueles horizontes, daquelas serras virgens e daqueles aromas matinais que um ligeiro pitiú de certas luas não chegava a anular, pensando outra vez, que a verdadeira vida estava ali, entre aquela gente e naqueles lindos lugares.

Havia no dorso da praia um exército de canoas de todos os tamanhos, as proas levantadas sobre rolos, apontando o infinito.

Momentos depois, a guaperubú do Manciel rompia a maré, para o largo da Enseada do Flamengo, a rumo do Saco da Ribeira que se pintava ao longe, ao fundo daquela concha de terra verde, ao grasnar dos carapirás em vôo baixo ao saltarelhar vagabundo das tainhas.

Do Saco da Ribeira para a Sununga foi um arranco de quinze minutos a pé, pela vereda de arenito toda bordada de aleluias e, por fim, a visão dadivosa e mansa da baía da Fortaleza, com seu recorte de cromo e uma rampa de areia deslumbrante de brancura, onde os pés se enterravam - num atrito de alpaca de seda, a famosa Sununga.

Ao canto, bem ao fundo daquele imenso lençol de areia solta inclinar-se para as ondas bulhentas, lá estava a gruta encantada, que a voz do tempo apelidara "A Gruta que chora".

A imaginação do doutor Avelino desatou-se em arroubos, diante da pequena caverna lendária, que o trouxera de longe para o transporte emocional do misterioso e do desconhecido. Ansiava por fazê-la chorar, por ver aquelas lágrimas de prata que a tradição dizia verterem do alto da lapa ao soar de gritos humanos. Ele avançara sozinho, precipitando os passos, para ser o primeiro a colher a emoção do fato estranho, e, já da ponta da pedras laterais, que avançavam como braços de esfinge para dentro do mar, levantou a voz em palavra a esmo:

- Chora! Ei! Vamos! Chora!

Quando os outros chegavam, começava o espetáculo da natureza; caíam na areia grossa da boca da caverna, em toda a sua largura, as primeiras gotas cristalinas, como em princípio de um pranto. Doutor Avelino continuou a gritar, e as lágrimas foram amiudando e engrossando, caindo em abundância de cada ponta de folha, de cada epífita suspensa, de cada ruga de pedra da fronteira rasgada em arco.

Houve em seguida um silêncio de meditação; sentaram-se todos à entrada daquela boca de pedra aberta para o oceano, e entre eles e o azul escandaloso do céu ensolarado, passava a cortina de lágrimas, em cambiâncias de cristal de boêmia. Confirmava-se a tradição, para encanto do espírito exaltado do doutor da cidade, e o silêncio dos visitantes era o retrato da sua imaginação traumatizada ao contato do mistério.

Foi o Puruba, em sua inconsciência de simples, quem interrompeu o recolhimento dos visitantes:

- Tá vendo, sô dotô? Bunito, não? Mais a história é muito mais bunita...

E foi assim, sob o assentimento do doutor Avelino, acordado ao som metálico daquela voz, que o Puruba, ajudado às vezes pelo irmão, o remeiro do Maciel, desenrolou de novo a história velha que já contara a tanta gente.

***
Naquele tempo a Enseada dos Miramomis era quase virgem do homem branco; quase, porque os franceses chegavam por ali de vez em quando - os coaraciabas - amigos que eram dos tupinambás. Iperoig era então o reino exclusivo dos homens de bronze da taba de Aimberê e Coaquira, senhores de Ubatuba, uma esmeralda grande a encastoar-se no anel das águas da enseada.

Além, a dez quilômetros de distância, na várzea da Sununga, ficavam as ocas de Coaquira, ao alcance regular das ubás de Iperoig e do som costumeiro dos trocanos da sede, repetido nas ocas intermediárias.

Potira, a virgem tamoia, filha de Coaquira, estava noiva de Jagoanháro, jovem guerreiro, e o casamento deles seria ao fim de "duas luas".

Havia a pairar sobre aquele povo dois motivos recentes de tristeza e inquietude - a caçada intermitente de suas mulheres, realizada pelos portugueses de Bertioga, e um castigo de Tupã, o aparecimento da "cobra grande", um monstro de olhos verdes que chispavam fogo, no costão da Sununga, perto das ocas de Coaquira, vinda da Guãxima, ao que diziam, levantando ondas na passagem.

Afirmavam alguns índios pescadores que o rabo do monstro ferira sete vezes a terra, na ponta do pequeno promontório, e sete fontes haviam brotado do chão ferido. Seguira a serpente enorme para diante, rabeando sobre as águas e chegara às areias da proximidade do sítio de Pindobussú. Ali chegando, a cauda imensa do monstro ferira a rocha, abrindo nela uma gruta profunda, onde ele se aninhara. Naquele instante a terra subira, o mar se refrangera e avançara de nvo, invadindo a gruta numa explosão de raiva, recuando outra vez a um rugido espantoso da "cobra grande".

Tão grande fora o duplo ronco e tão despropositado naqueles lugares que, ao longe, a indiada de Coaquira gritara assustada, correndo para a praia, a ver o que acontecera

- Pará cyninga! (cyninga – ruído forte)

Viram todos então, sem compreender, o fenômeno da costa refrangida, a praia em rampa, o mar embravecido onde fora sempre remançoso e calmo, como o próprio lugar.

Apenas dois ou três tamoios que pescavam àquela hora tinham visto a "cobra grande" e mostravam aos outros a gruta que não existia anteriormente e onde ela se internara.

Os pajés da tribo, a sacudir seus maracás sagrados, pressagiavam desgraças para breve e para quem se aproximasse do bicho.

E dali por diante, nas luas cheias, uma cunhatã tamoia desaparecia das ocas, sem que ninguém visse como desaparecera, vendo todos apenas, pela madrugada, um rastro enorme e grosso que se prolongava pela areia, na direção da gruta.

Pensou Coaquira, embora ferido em seu orgulho, em abandonar aquelas terras onde nascera e onde fora sempre feliz, mudando-se para a Maranduba, mais além, a salvo do monstro que acovardava os seus guerreiros e que ninguém queria combater.

Naqueles dias, caçadores portugueses, pelo menos ao que diziam, de novo aprisionaram diversas cunhatãs tamoias de Malembipe e os trocanos soavam, falando a linguagem da guerra. Aimbirê e Pindobussú reuniam as tribos para um movimento geral dos tupinambás de toda a costa vicentina contra os peros, os portugueses de Bertioga, fazendo esquecer em parte os fatos da "cobra grande".

Foi naquela altura que dois abarés dos peros chegaram a Iperoig para apaziguá-los, afirmando-lhes que os portugueses não eram culpados, que eram os franceses que roubavam as suas mulheres, para lhes dizer depois que foram os portugueses e atirar contra eles a vingança dos tupinambás. Vinham os pai-abunas para lhes propor uma paz de fato ou mais do que isso, uma aliança, afirmando-lhes que assim determinara o seu Deus, que era mais forte do que Tupã.

Um movimento de ódio e temor pincelado de curiosidade arrastara índios e índias para junto dos dois padres, ameaçando-os de morte pelas intrigas dos pajés.

Chegara então a lua cheia e os pavores de Coaquira se renovaram. Uma cunhatã decerto desapareceria para sempre do seu povo, sem reação e sem defesa, e isso o desesperava. Estava o chefe a parlamentar com Pindobussú sobre as coisas da guerra e a presença dos abarés, quando um mensageiro, cheio de terror, veio lhe dizer que Potira, a sua filha, fora carregada pela "cobra grande".

À notícia cruel, Coaquira e Jagoanháro precipitaram-se, loucos de raiva e de dor, para as ocas distantes.

Ia muito avançada a madrugada quando eles chegaram, e Jagoanháro pôde ver apenas, na entrada da gruta do monstro misterioso, um rastro de sangue sobre a areia branca, que uma réstia de luar ainda mais alvejava.
Desesperado, o guerreiro tupinambá investiu pela caverna, aos gritos de Coaquira e dos outros companheiros. Um ronco enorme soou em seguida, na garganta escura da gruta, seguido de um grito lancinante, e depois o silêncio, um silêncio de morte assombrado pelo luar.

Os homens de Coaquira desertaram ouvindo o ronco, e o morubixaba amarrado ao lugar, como um daqueles guanandis da várzea, pela primeira vez teve vontade de chorar, ao sentir-se sozinho, frágil como criança, acovardado como uma mulher, incapaz de levar a cabo o socorro à filha que queria tanto e a Jagoanháro, que em breve devia ser seu filho e futuro chefe em seu lugar, destroçado em seu orgulho de rei que já não poderia reinar.

Pindobussú ameaçou céus e terras quando soube da morte de Jagoanháro, devorado pela "cobra grande", e jurava enviar uma legião de ubás para dar combate ao monstro. Um pajé veio dizer-lhe, então, que tudo seria inútil, e que se aqueles padres eram mesmo santos, e se o seu Deus era mais forte do que Tupã, como dizia, eles que dessem uma prova disso naquela contingência, libertando o povo tupinambá da estranha serpente surgida nas terras de Coaquira. Se assim acontecesse é que seriam mesmo santos e seria o seu Deus maior do que Tupã, porque, de outra forma, acender-se-iam desde logo as fogueiras que deviam assá-los para o banquete.

Nóbrega e Anchieta, pois que eram eles os abarés dos portugueses, aceitaram o desafio dos pajés de Pindobussú e se foram, em expedição, ao lado dos morubixabas tupinambás e uma legião dos seus guerreiros, enquanto os pajés ficavam em sua poracéia bárbara, prelibando o fracasso dos peros.

Rompia a manhã no lado dos céus de Picinguaba, quando a tribo inteira de Coaquira, com seu chefe e os tuchauas de Iperoig, tendo os dois padres à frente, se apresentaram diante da gruta da "cobra grande".
Padre de Anchieta para em frente a gruta e branda: - Apresenta-te em nome de Deus!

Manoel da Nóbrega ia avançar quando Anchieta colocou-se adiante dele e avançou rapidamente para a caverna, a mão alçada no ar, bradando:

- Apresenta-te em nome de Deus! Em nome de Deus!

Um rugido pavoroso irrompeu do fundo da garganta escura e chispas de fogo fuzilaram de dois olhos verdes. A pedra tremeu a uma convulsão do monstro, e, subitamente, uma cabeça enorme surgiu à luz da manhã, avançando para o pequeno e frágil pai-abuna.

A indiada, transida de medo, comprimia-se lá fora, amparando-se mutuamente para não fugir, assombrada ante a coragem daquele homem magro, pálido e de roupagem negra, que num supremo desprezo à vida, ainda protegia o companheiro.

Outro rugido imenso feriu o silêncio daquele instante supremo, e a cabeça do monstro projetou-se sobre o padre, mas, naquele momento, o abaré dos portugueses, enfrentando a sua fúria, suspendera no ar a cruz do seu Deus, que arrancara do peito, e, então, diante de toda aquela gente bárbara houve um estampido enorme, enquanto uma densa nuvem de fumaça, tresandando a enxofre, envolvia a cena.

Ao dissipar-se o fumo, lá estava o padre imóvel, no mesmo lugar, como uma figura de pedra negra, a mão alçada no espaço e nela o crucifixo, mas a "cobra grande" desaparecera para sempre, deixando revolvida a areia e entulhada a garganta onde se escondia e onde para sempre ficariam Potira e Jagoanháro, unidos no noivado eterno da morte.

- Anhanga! Anhanga! - bradavam os tamoios na beira da praia.

- Potira! Potira!... - gritava Coaquira, diante da caverna, enquanto Pindobussu curvava a cabeça para o chão, em sinal de respeito, curtindo em silêncio a sua dor serena.

E, naquele instante, viram todos que, aos gritos do morubixaba tupinambá, vertia a gruta lágrimas abundantes, chorando como um ser humano, como se caissem dos seus olhos, lá de cima, um chuveiro de lágrimas ardentes.

***

O Puruba terminava a sua descrição:

- Esse bicho, sô dotô, era o capeta... As sete fonte, onde ele bateu co rabo sete vêis, tão lá, mais prá riba, prá ponta dessa costera... Este má que era manso como o má de Santa Rita, ficô brabo e co essa sununga, esse ronco que vai longe e que ficô dando nome ao lugá. E essas lágrima, sô dotô, podeis crê, é da índia noiva, que o bicho incantô e que tá incarnada nesta gruta; é o choro da moça, quando ôve a vois de arguém, e pensa que é do noivo ou que é do pai, gritando disisperado pur não podê li sarvá...



A segunda lenda da Serpente Sununga



Graciosa jovem de tez suavemente morena, olhos cinza esverdeados, farta cabeleira negra e ondulada, porte esbelto e curvas caprichosamente delineadas, Marcelina, até então alegre, forte e viva, de repente pareceu aniquilar-se, alimentando-se mal, perdendo as cores, visivelmente tímida, quase sem ânimo para as tarefas costumeiras e, de modo sumamente estranho, muitas vezes permanecia acomodada até alto dia, necessitando que alguém fosse alerta-la para que deixasse o leito.

Remédios já os havia tomado em grande quantidade, desde "vinho-composto" a chás de várias ervas, e até banhos de cozimento de folhas e flores já Lhe haviam sido ministrados, mas nada resolvia. Sinhá Anália confidenciava seus temores às amigas mais íntimas e estas procuravam afastar-lhe as preocupações:

- Ah, não é nada... é da idade... quantos anos ela tem? Quinze? Então tá aí, é da idade! Mas isso não tranqüilizava a apreensiva mãe que, interpelando a filha, revelando seus temores e fazendo indagações, recebia sempre respostas como esta:

- Que é isso, mãe? Estou boa, não sinto nada. A senhora está com medo só porque eu estou levantando um pouco mais tarde? Só porque ando com pouca fome? - e fingindo um sorriso - Se eu comesse muito aí a senhora ia achar ruim, é ou não é?

Dias se passaram, tristes e apreensivos, até que certa madrugada, ao raiar do dia, Sinhá Anália, que passava noites inteiras quase em vigília, ouvindo soluços provindos do quarto da filha para lá se dirigiu, encontrando-a abraçada ao travesseiro, abafando o pranto e murmurando palavras desconexas que pareciam ser:

- Não! Não vá... não quero... espere...

A desolada mãe, atordoada com aquelas palavras sem sentido algum, não alertou a filha. Acomodou-se aos pés da cama e se pôs a rezar, pedindo a Deus que Lhe desvendasse o mistério que aniquilava a filha.

De repente Marcelina começou a mover-se. Mui lentamente levou as mãos aos olhos como que procurando dissipar uma lágrima e depois, vendo a mãe ali postada, com voz entrecortada começou a falar:

- Que é isso, mãe? A senhora está ai? Está chorando? Ah, me perdoe... Eu sei... Eu estou fazendo a senhora sofrer... Mas... Não chore... Não se desespere... Eu sei que a senhora quer saber tudo, não é? Então escute... Eu vou contar o que tá se passando comigo! A senhora sabe a estória daquele bicho, daquele dragão que mora na Toca da Sununga, não é? Sabe, sim, porque todo mundo sabe. Por que é que toda gente deixou de passar por lá? Porque basta alguém chegar lá perto para o mar ficar bravo, chegando a jogar as ondas até na boca da toca, arrastando tudo, seja lá o que for que estiver por perto! Pescador, esse então nem se fala, esse navega lá de longe, pra mais de duzentas braças da praia e ai dele se chegar mais pra perto! Somem ele, a canoa, os apetrechos, some tudo, como já tem acontecido, é ou não é? Todo mundo sabe disso, todo mundo fala, mas até hoje ninguém disse que viu o tal dragão.

Isto é, ninguém disse, não, porque o "seu" Antero viu, viu e me contou. Ele me disse que numa noite tava chegando de viagem e como era muito tarde pra chegar na casa dele, na Praia das Sete Fontes, resolveu cortar caminho. Então foi andando por cima do morro, por trás daquela bruta pedra da toca. Mas aí, quando foi chegando perto, ouviu um rugido tão grande que se arrepiou todo! Quis correr mas não pôde, parecia que estava grudado no chão! Aí foi que ele viu o bicho que estava saindo da toca e andando pro lado dele! Era um bicho horroroso! De meio corpo pra cima era que nem aquele dragão que a gente vê nos quadros de São Jorge, onde o santo está fisgando ele com uma lança! O resto do corpo era que nem cobra, roliço, sem pernas, se arrastando no chão! Aí, a lua que tava clara, limpa, iluminando tudo, se escondeu por trás de uma nuvem deixando tudo escuro que nem breu! "Pronto, vou morrer!" - pensou ele. Fez o sinal da cruz, ajoelhou-se e começou a rezar o "Crendos Padre". O bicho parou e foi se encolhendo devagarinho, devagarinho, que nem cobra quando vai dar o bote, mas não fez isso, não. Ao contrário, fez a volta e foi sumindo no meio das árvores, pros lados da toca. Aí "seu" Antero me disse que pôde se desgarrar do chão e deu pra correr até chegar em casa, mais morto do que vivo! Lembra-se, mãe, daquele dia que o "seu" Antero me levou até a Maranduba pra assistir o casamento da Justina? Pois foi naquele dia, no caminho - conversa vai, conversa vem -,que ele me contou essa estória do dragão da Sununga.
O Dragão da Sununga é o responsável por deixar o mar tão agitado

Mas não sei, mãe, não sei porque aquele homem me contou isso. Não sei... Desde aquele dia nunca mais me esqueci do tal dragão, me parecendo estar vendo ele em toda parte, grande, gosmento, se arrastando no chão... Pra mim me parecia que ele tava na bica onde a gente lava roupa... no caminho que vai pra venda do "seu" Gardino... no acero da roça... até no rancho de guardar as canoas, me parecia que ele tava lá! Mas não tava, não! Era bobagem, mãe... Mas sabe que eu não tinha medo? Sabe que eu até tinha vontade de ver o tal dragão? Tinha mesmo... Juro que tinha... Pois uma noite - não foi sonho - eu tava acordada, tava acordada e vi quando ele veio sem fazer barulho, sem abrir a porta e entrou devagarinho aqui no meu quarto. Era o dragão, igualzinho, do mesmo jeito como o "seu" Antero me contou. Ai eu quis gritar pra senhora me acudir, mas quem diz que eu podia falar? Quem diz que eu podia me mexer? Aí o bicho foi chegando, chegando e ficando pequeno, tão pequeno que coube ali naquele canto perto da janela. Não demorou ele foi se enrolando, foi ficando do jeito de um tipiti bem grande e daí a pouco, mãe, aquilo foi virando gente e ficou do jeito de um moço, mas um moço bonito que Deus me perdoe - perdi o medo.

O moço ficou bastante tempo ali, de pé, me olhando com uns olhos azuis da cor do céu! E se riu pra mim... Aí eu me ri pra ele e ele veio vindo, veio vindo, chegou perto de mim, passou a mão nos meus cabelos... Depois sentou-se aqui na cama... Depois... Depois ficou comigo! Oi, mãe, ele foi embora só de manhãzinha, depois que o galo cantou três vezes... E eu fiquei com tanta pena... Tive até vontade de chorar... E chorei, não tenho vergonha de contar, chorei mesmo! Agora, mãe, não tenho vontade de trabalhar, nem de comer, nem de conversar, nem de nada. Minha vontade é de ficar aqui no quarto, de porta fechada esperando que a noite chegue e que o bicho venha e se vire no moço bonito, pra ficar comigo até de manhãzinha. Ainda há pouco, mãe, eu tava chorando. Tava chorando porque ele tava indo embora sem querer me ouvir. Eu tava pedindo pra ele ficar, mas ele nem ligou... Toda vez que vem aqui, vai embora antes do dia clarear. Não adianta pedir, não adianta chorar, ele não liga e vai embora. Então, é como já disse, eu fico aqui sozinha, pensando nele, até que volte outra vez pra ficar comigo...

* * *
Esta revelação Sinhá Anália ouviu-a no auge do desespero, quase arrastada às raias da loucura. Mas, que fazer? A quem apelar? Nada mais Lhe restava senão rezar e pedir a parentes e amigos que fizessem o mesmo, a fim de que um milagre a livrasse de tão iníqua provação.



* * *
Passava o tempo, quando certo dia bateu-lhe à porta um trôpego velhinho - talvez um monge, envolvido num manto andrajoso - que, com voz sumida e rouca pediu-lhe alguma coisa para comer, bastava um pedaço de pão com que pudesse mitigar a fome que lhe corroía as entranhas. Sinhá Anália, amargurada mãe que sofria tanto, ainda encontrou fibras sensíveis em seu coração para se compadecer do mísero viandante, faminto, maltrapilho e exausto. Fazendo-o entrar, agasalhou-o, deu-lhe de comer e depois de reanimá-lo, atendendo às suas indagações, relatou-lhe todo o infortúnio, toda a razão da tristeza que consternava aquela casa.

O velhinho ouviu-a, imoto, impassível, como em prece, como que absorto em pensamentos distantes. Finda a narrativa, fez Sinhá Anália sentar-se junto dele e revelou-lhe que, de há muito, bem longe dali, em sua peregrinação, já ouvira falar do monstro satânico que atormentava a população daquele bairro. Justamente por isso é que ali. viera, por inspiração divina, a fim de libertá-la da opressão que lhe infringia o Espírito do Mal.

Essa revelação correu célere pela redondeza, reunindo conside-rável multidão que, certo dia, sem temor, acompanhou o venerável ancião na caminhada que fez em direção á toca que abrigava o dragão da Sununga.

Caminhavam todos trôpegos, arfando, escalando a encosta pedregosa até atingir o cimo do íngreme penedo que recobre a desmedida gruta. Ali chegando, o monge ergueu os braços num largo e lento gesto do sinal da cruz, e ao murmúrio de piedosa prece, espargiu por sobre a pedra a água que levara num pequenino púcaro.

Naquele instante um trovão violento fez estremecer a terra, atordoando a multidão em prece! O mar, rugindo em doidas convulsões, projetou-se violento contra a impassibilidade das rochas, para retroceder, abrindo-se ao meio, bem em frente à toca, dando passagem ao monstro apocalítico que por ali avançou rugindo, sumindo ao longe, na profundeza das águas!

* * * 

Nunca mais se teve notícia do dragão da Sununga. De Marcelina, sabemos que embora arredia, taciturna, ainda viveu por longo tempo, conservando traços da rapariga que fora "de tez suavemente morena e olhos cinza esverdeados, farta cabeleira negra e ondulada", e mantendo o "por-te esbelto e curvas caprichosamente delineadas"!

Hoje, quem se postar no interior da lendária gruta, perceberá cair lá de cima, das ranhuras da pedra, uma seqüência de pequeninas gotas que se infiltram na areia branca e fina que alcatifa o chão.

Dizem, alguns, que são remanescentes gotas da água benta espargida pelo monge, que ainda caem, a fim de que o dragão jamais possa voltar.

Outros, porém, afirmam que são lágrimas de Marcelina, que lá voltou muitas vezes, na esperança de que o dragão, feito moço bonito, ainda voltasse, para ficar com ela a noite inteira, até os primeiros albores da manhã!

Blemia Powered by Google

Google